Quais os cuidados tomar com um pet cego dentro de casa

A cegueira em cães e gatos pode ser causada por doenças hormonais, como a diabetes, por maus tratos ou acidentes. O animal pode mudar de comportamento e necessitar de atenção especial

A professora de ensino fundamental Ariádni Brandilla, 31, cria 16 cachorros, todos eles resgatados de situações de abandono e maus tratos. Entre eles, o vira-lata Gordinho, de cinco anos, que não enxerga e tem dificuldades de adaptação: “Ele fica perdido”.

A tutora conta que Gordinho foi vítima de uma queimadura que, ao cicatrizar, repuxou os olhos dele, danificando seriamente a visão. “Ele não tem mais pálpebras, não fecha mais os olhos, por isso o ressecamento fez com que perdesse a visão”, explica.

Ela diz que, em casa, o cãozinho se vira bem, mas que geralmente tem problemas quando precisa sair. “Ele fica perdido na rua, bate no meio fio, tropeça, então decidimos não sair com ele”, relata.

Em casa, Gordinho até brinca com os outros cachorros, mas, no geral, fica muito quieto e isolado, o que fez com que engordasse, razão para o nome dele. “Hoje é supermimado e só dorme se tiver um travesseiro para ele”, diz Ariádni. Sem exercícios físicos, comendo e dormindo muito, o risco de desenvolver  obesidade é muito grande para animais. Apesar disso, a tutora afirma que o cão está em ótimo estado de saúde: “É mais saudável que todos”.

Gordinho foi vítima de uma queimadura fruto dos maus tratos que sofria antes de ser adotado por Ariádni
Arquivo pessoalGordinho foi vítima de uma queimadura fruto dos maus tratos que sofria antes de ser adotado por Ariádni

Além do Gordinho, Ariádni criou por dois anos o pinscher Miundão, também cego. Por alguma razão, a cadela que deu à luz a ele o jogou na parede quando ainda era um filhote, o que provocou um traumatismo craniano e prejudicou sua visão para sempre. Mesmo assim, e diferentemente do Gordinho, que perdeu a visão depois de adulto, ele se adaptou bem à vida e à casa da sua tutora.

“O Miundão viveu apenas até os dois anos porque o trauma de crânio acarretou outras doenças, mas não tinha nenhum problema em ser cego. Ele se adaptou muito bem. Chegava na comida primeiro que os outros cachorros. Não fizemos nenhuma adaptação na casa, mas prestávamos atenção em degraus, o que ele também se adaptou: ia farejando até saber onde tinha que descer”, lembra a tutora.

De acordo com a veterinária oftalmologista Letícia Séra Castanho, o pet que perde visão precisa de muito amor e cuidados especiais para evitar que se machuquem ou fiquem isolados e depressivos. “Amor é o principal, ele pode ter qualidade de vida e viver bem com os cuidados necessários.

A especialista afirma que alguns ajustes na casa onde vivem esses animais de estimação cegos são importantes a se fazer para evitar o surgimento e outros problemas. “É preciso adaptar a casa porque os cães podem cair e se machucar. É necessário proteger pontas de mesa e colocar obstáculos como portões para que não tenham acesso a degraus e escadas. A comida e a água devem estar acessíveis e no mesmo lugar onde o pet costumava comer”, diz a médica.

Miundão cresceu cego e conseguiu se adaptar melhor à vida sob essa condição

Os pets cegos, principalmente aqueles que não nasceram com essa condição, mas que perderam a visão ao longo da vida, geralmente ficam mais sensíveis ao toque humano, podendo ficar mais inseguros, agressivos ou até depressivos no início.

“O toque pode ser desconfortável para alguns pets porque é súbito e assusta. Para evitar o incômodo, o ideal é sempre falar com o cão antes de tocá-lo, para que ele saiba que o tutor está próximo. No caso dos pets que também não escutam bem, é possível aproximar a mão para que ele perceba o cheiro e a aproximação”, explica Leticia.

Para passeios, a recomendação é utilizar a coleira do tipo peitoral, que facilita a condução do tutor guiando o pet para evitar quedas e outros traumas. É interessante que os passeios sejam feitos também sempre nos mesmo locais em que o pet já estava acostumado antes de perder a visão.

A veterinária explica que algumas doenças podem causar a cegueira nos animais de estimação e que, por isso, é importante cuidar da saúde deles com um todo. Entre as doenças apontadas, Letícia destaca a diabetes, que é causada pelo grande volume de açúcar na alimentação.

“São doenças hormonais, especialmente a diabetes, que a gente atende muito na clínica e pode levar a doenças oftálmicas, como processos inflamatórios e a catarata. A catarata, quando evolui, obstrui a passagem de luz e o paciente chega a perder a visão. Essa doença ocular também pode levar a um aumento de pressão, um glaucoma, e gerar um processo realmente grave de perda de visão, muitas vezes, irreversível”, afirma a especialista.

Algumas doenças como diabetes, que pode ser provocada por uma alimentação desregrada, pode levar o animal à cegueira
Banco de Imagens/PexelsAlgumas doenças como diabetes, que pode ser provocada por uma alimentação desregrada, pode levar o animal à cegueira

A tutora Sânzia Araújo, de 27 anos, conta que passou por uma experiência desse tipo com a poodle Talia, que ganhou de presente quando completou três anos de idade. Durante a infância, Sânzia, que não sabia o mal que isso podia causar a Talia, dava doces para a cadelinha, o que, com o tempo, provocou o surgimento de uma diabetes.

“Dva bastante doce para ela, tudo o que eu comia eu oferecia. Ela acabou desenvolvendo uma diabetes que acarretou na cegueira dela quando ela estava com seis anos. Ela viveu mais nove anos sem a visão, mas tinha uma vida de muita qualidade e não apresentava dificuldades em lidar com a cegueira, raramente batia em algum móvel, só se mudássemos de lugar, o que nos fez a deixar a casa sempre na mesma ordem. Talia subia na cama e no sofá sem problemas, conseguia nos acompanhar apenas pelo som da nossa voz”, relata Sânzia.

Em 2016, quatro anos depois de Talia falecer, Sânzia adotou uma outra cadelinha poodle com a mesma especificidade: não enxergar. Kiki já chegou idosa no novo lar, os veterinários que já a examinaram afirmam que ela tem entre 15 e 16 anos. “Quando a resgatei ela estava com uma infecção em um dos olhos e o outro tinha uma úlcera com início de catarata, tratamos a infecção, mas infelizmente ela veio a perder visão”, conta Sânzia.

A úlcera também foi tratada e Kiki ficou enxergando por dois anos, quando a catarata avançou mais rapidamente, a deixando completamente cega. “Diferentemente de Talia, Kiki tem muita dificuldade de locomoção desde que perdeu a visão totalmente. Ela fica mais tempo deitada e, quando anda, vai bem devagar, com medo, literalmente com o rabo entre as pernas. Ela também tem dificuldades em mudar de ambientes, fica bastante nervosa e chorando, mas interage bem com outros animais e com crianças”, diz a tutora.

A veterinária Letícia afirma que é possível tratar a diabetes e a catarata – que, assim como nos seres humanos, é possível ser resolvida com uma cirurgia – para evitar cegueiras. O controle da pressão e a constante avaliação de um especialista também podem ser chave no processo de prevenção da perda da visão de um pet.

“Tudo precisa ser avaliado pelo veterinário oftalmologista, com exames específicos, e de forma precoce. Sempre que a gente consegue fazer uma avaliação inicial, nós conseguimos tratar e garantir uma resposta melhor. A medicina veterinária evoluiu muito, nós temos muitos equipamentos e, por isso, conseguimos reverter muitas doenças que, antigamente, eram irreversíveis”, indica Leticia.

Fonte: Canal do Pet – iG @ https://canaldopet.ig.com.br/guia-bichos/2021-03-06/veterinaria-explica-quais-os-cuidados-tomar-com-um-pet-cego-dentro-de-casa.html